sábado, 6 de novembro de 2010

CICATRIZ


Amanda, Andréa, Ágatha...
Mulheres da minha vida,
Que quase causaram minha morte.
Muitas passaram,
Todas se foram.
Deixaram apenas um vazio em minha alma,
Algo que provasse que elas eram superiores,
Que me amavam conscientes,
Sabendo até onde poderiam levar a relação.
Muito diferente de mim,
Que me entregava a elas,
E passava a viver única e exclusivamente para elas,
Abandonando meus desejos e necessidades
Que não tinham nenhuma importância perto da grandeza delas.
Amei a todas,
Cada uma mais loucamente que a outra.
Mulheres...
Mulheres lindas,
Verdadeiras obras de arte,
Que deveriam ser apenas adoradas,
Nunca tocadas,
Como cheguei a fazer.
Por isso talvez elas tenham perdido o encanto,
Tenham se transformado em pessoas,
E isso é a perdição para elas.
Até hoje me lembro de suas faces,
Tão belas e angelicais,
Mas tão inconstantes quanto belas.
Não canso de dizer:
Amei a todas,
Cada uma mais loucamente que a outra.
Fui fiel a todas,
E todas me abandonaram um dia,
Todo aquele amor se transformava em dor,
Uma dor incontrolável,
Que minava minhas resistências e me jogava num abismo.
Abandono...
A perda da identidade,
Pois minha vida era as delas,
Eu não era nada,
Como continuo não sendo.
Muito tempo levava até me recuperar,
Mas sempre uma pequenina dor permanecia,
Algo como uma cicatriz,
Para que eu nunca esquecesse que fui dominado e destruído.
Surgia uma nova mulher,
Mais bela que a anterior,
Me entregava a ela e esquecia de tudo que havia passado.
Outra vez uma adoração incontrolável,
Uma paixão inconsequente,
Sem limites.
Uma vida em comum;
O esquecimento de mim,
A entrega total a ela.
Um dia,
Um abandono,
Nenhum aviso,
A dor,
A vontade de morrer.
Um grito de dor parado na garganta,
Mais uma facada em meu coração,
Mais uma vez a perda de identidade.
Mulheres...
Mulheres da minha vida,
Lindas como eram,
Não eram para mim.
Amanda, Andréa, Ágatha...
Essas e muitas outras passaram por mim,
Nunca as tive,
Elas me possuíram.
Amei a todas,
Mais que a mim mesmo.
Me entreguei a todas.
Fui abandonado por todas.
Hoje não me entrego a ninguém,
Mas continuo sendo abandonado por todos.
Essa dor não vai cicatrizar.

TREZE ANOS


Desde criança nos conhecíamos,
Crescemos lado a lado.
Ela sabia tudo sobre mim,
E eu idem.
Passamos a vida brincando,
Não tínhamos qualquer preocupação.
Nos tornamos adolescentes,
Começamos a descobrir que não éramos apenas amigos,
Havia algo mais,
Algo que nos mantinha sempre juntos.
Juntos, descobrimos o sabor do beijo,
Juntos, descobrimos o seu significado;
Ou talvez tenhamos inventado um significado especial,
Algo que só tivesse sentido para nós.
Depois disso nada foi como antes,
Não conseguíamos ficar separados,
O beijo havia nos unido para sempre.
Cada segundo que ficávamos separados,
Parecia que perdíamos um pouco de vida.
Nosso relacionamento se transformou em algo que eu não conhecia,
Todas as horas do dia sentia falta dela.
Descobri que o que sentíamos era uma louca paixão,
Bem mais forte que o amor.
Ela não era como antes,
Eu não era como antes,
Nós não éramos mais crianças.
Levamos treze anos para descobrir esse sentimento.
Sempre juntos,
Ele foi se transformando.
De uma amizade, se transformou em paixão.
Eu a vi se transformando em mulher,
Sua beleza foi se moldando,
Agora, ela estava perfeita.
Tão linda!
Depois do beijo as coisas ficaram mais difíceis,
Senti que agora eu era só dela,
Que devia fazê-la feliz a qualquer preço.
Senti necessidade de dizer que a amava.
Ela me ouviu quieta,
Não deixou, em nenhum momento, que seu sentimento se revelasse.
Eu fiquei assustado,
Não sabia até onde ia sua paixão por mim.
Terminei de me declarar.
Ela não disse nada,
Deu um passo em minha direção e me beijou,
Um beijo mudo, que dizia tudo:
Ela me amava também.
Não podia acreditar no que estava acontecendo;
Acho que sabia que ela gostava de mim,
Mas não sabia o quanto.
E aquele beijo disse tudo.
Aos olhos dos outros, continuávamos apenas amigos,
Mas éramos mais, muito mais.
Eu e ela sabíamos disso,
Para nós bastava;
Não podíamos correr o risco de que alguém acabasse com tudo.
Nossa paixão cresceu;
Juntos, havíamos descoberto o beijo,
Juntos, descobrimos o sexo,
Apaixonados loucamente.
Naturalmente nos amamos,
Havíamos dado mais um passo para concretizar o nosso amor.
Não podíamos recuar,
Nossa paixão era grande demais para ficar apenas num beijo.
Agora, mais do que nunca;
Nós nos amávamos,
Nos pertencíamos.
Treze anos para a descoberta e um ano de paixão,
Levada à loucura,
Sem limites.
Nos amávamos em qualquer lugar,
Desde no banheiro da escola
Até no quarto de seus pais.
Nada nos impedia,
Ninguém nos assustava.
De repente tudo acabou,
Ela passou a não me querer com a mesma intensidade que eu a queria,
Passou a não ficar comigo o mesmo tempo que antes ficava,
Passou a não querer mais me amar.
Me abandonou,
Nada explicou,
Passou a namorar outro cara.
Abandonou nossa paixão por um simples namoro.
Fiquei perdido,
Eu havia me entregado totalmente a ela,
Agora não sabia o que fazer comigo,
Eu não mais me pertencia.
Sentindo a mais profunda dor;
Passei a beber,
Agora o álcool é minha amante.

AMANHÃ VIVO HOJE


HOJE é um dia que SEMPRE assusta,
Que deixa SEMPRE uma incerteza,
Que SEMPRE traz um desafio conjugado.
Mas HOJE vai ser diferente,
Me preparei muito bem;
Olhei para ontem e pensei em amanhã.
HOJE deu tudo errado,
Meu preparo de nada valeu.
HOJE não teve nada a ver com ontem
E tampouco com amanhã (que nem existia).
Me ensinaram jogos,
Me ensinaram simpatias,
Me ensinaram bruxarias,
Me ensinaram tanta coisa para eu ver o amanhã...
Achei que vendo a amanhã,
Saberia viver o HOJE.
Tudo tolice.
Nada deu certo,
Não aprendi nada,
Não vi nada,
Não consegui viver o HOJE.
HOJE; espero o HOJE passar,
Deixo tudo correr lentamente,
Assim, amanhã vejo o que fiz HOJE.
Nada adiantará,
Mas pelo menos não faço nenhuma besteira.
HOJE; se eu acordar triste,
Amanhã vejo o que causou.
HOJE paro por aqui,
Amanhã vejo como terminar.
Só não posso errar...

CONTRARIEDADES


Me pediram para falar;
Me calei.
Me pediram para andar;
Parei.
Me pediram para rezar;
Exorcizei.
Me pediram para viver;
Me suicidei.
Ninguém tem nada com isso,
Passei a vida inteira contrariando.
Tentava atacar as pessoas,
Afinal, elas eram sempre as culpadas.
Elas me deprimiam,
Me irritavam, me cansavam.
Fiz tudo para atacá-las,
Para que sentissem meu poder,
Minha capacidade de dominação.
Acho até que consegui algo;
Muitos morriam de raiva.
Mas quando morri,
Para dar a cartada final;
Eles nem compareceram ao enterro.
Pensei que fosse tão importante,
Que tinha o poder de mudar tudo,
Mas não consegui mudar nem meu destino.
Minha importância,
Que considerava minha maior riqueza,
Não dizia nada para eles.
Morri e nem pude lamentar.
Minha vida foi tão pequena
Que não valeria nem a tinta que iria gastar.